por Leandro Anselmini · 21 anos implantando ERP em pequenas e médias empresas
Em 21 anos implantando ERPs, aprendi a reconhecer uma cena que se repete: o brilho nos olhos de quem vai comprar um sistema novo, e a frustração de quem já comprou e não viu a mágica acontecer. A promessa é sempre sedutora — um sistema único, integrando estoque, financeiro, vendas e compras, trazendo controle e clareza para a operação. Mas, para a maioria das empresas que acompanhei, a realidade foi bem diferente.
Os números são desconfortáveis. Análises da Gartner e da Panorama Consulting, referências no setor, apontam que entre 55% e 75% das implantações de ERP não atingem os objetivos que motivaram o investimento. Apenas cerca de 30% dos projetos terminam no prazo e dentro do orçamento. Ou seja: a falha não é a exceção. É a regra.
Mas há um detalhe que mudou a forma como eu enxergo esses projetos — e que quem está no meio do caos raramente percebe: o problema nem sempre é a qualidade do software . Só não era o sistema certo para aquela empresa — ou não estava sendo usado como deveria.
Onde os projetos realmente falham
É tentador culpar o sistema. Ele é caro, é complexo, e é o rosto visível do projeto quando algo dá errado. Mas toda vez que fui chamado para entender por que um projeto tinha travado, a causa estava em outro lugar. A Panorama Consulting confirma o que a prática me mostrou: de 60% a 70% dos fracassos têm origem em falhas organizacionais internas — não no software. Os motivos que mais vejo são estes:
• Planejamento inadequado — raramente vi uma empresa começar a implantação sabendo o que ia encontrar pela frente. Muitas não tinham ideia nem de onde tirariam os dados que o sistema iria exigir. Sem esse chão firme, o projeto tropeça logo nas primeiras semanas.
• Escolha do sistema errado — aqui moram os casos que mais me marcaram. Empresas que compraram um sistema jurando que ele calculava o custo dos produtos, quando na verdade só havia um campo para digitar o custo manualmente. Ou que compraram achando que era um PDV de frente de loja, e era um sistema de retaguarda. O software era bom. Só não era o que aquela empresa precisava.
• Fornecedor inadequado — amais de uma vez ouvi a frase "fui enganado". E não tem mágica: não dá para comprar um sistema adequado quando o vendedor está pensando em bater a meta do mês, e não em resolver a dor do cliente. A recomendação nunca é imparcial quando quem recomenda ganha com a venda.
• Treinamento insuficiente — a maioria das empresas quer "usar para aprender", quando o certo é "aprender para usar". O treinamento é a primeira coisa que negligenciam. Já vi cliente abortar o go-live na última hora, ao perceber que a equipe simplesmente não sabia operar a ferramenta nova.
• Expectativas irreais — já atendi quem achava que o sistema faria tudo sozinho, que bastaria apertar um botão e a nota fiscal sairia, como num passe de mágica. ERP não é mágica. É uma mudança na forma de operar, e isso exige preparo.
Repare no que essas cinco causas têm em comum: nenhuma delas é culpa do software. Todas dependem de decisões tomadas por pessoas — antes, durante e depois da implantação. E todas são evitáveis.
A boa notícia que os números também contam
Se a estatística de falhas assusta, há um outro lado que quase nunca aparece na conversa. Segundo a própria Panorama Consulting, 97% das empresas relatam melhorias reais após uma implantação bem-sucedida. E isso bate com o que vivi: quando o projeto é bem conduzido, o ERP entrega o que promete. Vi empresas ganharem controle, reduzir desperdício e finalmente confiar nos próprios números. O que falha nunca é a ferramenta em si — é a forma como o projeto é conduzido.
Essa é a diferença entre os dois grupos. Não é sorte, não é o tamanho do orçamento, não é a marca do sistema. É o cuidado com o que vem antes e depois da ferramenta: entender o negócio, definir o que se espera, escolher com critério, preparar as pessoas. Quem faz isso bem colhe os benefícios. Quem pula essas etapas engrossa a estatística.
Como não entrar nessa estatística
Depois de tantos projetos, cheguei a um princípio simples que separa os que dão certo dos que fracassam: tratar o ERP como um projeto de negócio, não como uma compra de software.
Na prática, isso significa começar pelo diagnóstico — entender como a empresa funciona de verdade antes de olhar qualquer sistema. Significa analisar se o problema está na ferramenta ou na forma de usá-la, porque muitas empresas trocam de ERP repetidamente e continuam com as mesmas dores. Significa escolher com base na realidade do negócio, e não em uma lista de funcionalidades ou na simpatia do vendedor. E significa preparar a equipe para operar com autonomia, porque um sistema que ninguém sabe usar é dinheiro parado.
E, acima de tudo, significa contar com quem olha para o seu resultado — não para a venda de uma licença. Foi por acreditar nisso que construí o meu trabalho da forma como construí: sem vender software, sem defender fabricante nenhum, com o compromisso de dizer o que o cliente precisa ouvir, mesmo quando não é o que dá mais dinheiro para mim.
A estatística diz que a maioria falha. Ela não diz que você precisa ser parte dela.
Está avaliando um ERP, pensando em trocar ou lidando com um sistema que não entrega o que deveria? A Fidara é uma consultoria independente em ERP — nosso compromisso é com o seu resultado, não com a venda de licenças. Fale com a gente pelo WhatsApp para um diagnóstico sem compromisso.
Dados de mercado: Gartner e Panorama Consulting Group (ERP Reports, 2024–2026). As estatísticas referem-se a estudos internacionais de implantação de ERP.